1 de setembro de 2017

Entrevista - Artesanato e os caminhos da superação - Um 'papo cabeça' com a terapeuta Edna Pinto Chagas


Muito se ouve dizer sobre o efeito curativo do artesanato para aliviar o coração, desanuviar a mente, combater o stress e a ansiedade, resgatar a confiança, a autoestima etc. Mesmo em casos clínicos, a dedicação (ainda que temporária) a trabalhos que envolvam criatividade e fazer manual parece trazer resultados positivos consideráveis na recuperação dos pacientes.

Aqui mesmo, no Coisicas Artesanais, já tivemos o relato da Gílian, que atribui ao seu envolvimento com o artesanato o fato de ter conseguido vencer uma forte depressão, e conhecemos o trabalho do Renato, que passou a se dedicar à criação de pequenas mandalas de barro, sua "defesa" contra as dores provocadas por uma doença com a qual é obrigado a conviver.

E foi pensando nesse forte elo entre artesanato e cura, ente fazeres manuais e bem-estar, que decidi convidar Edna Pinto Chagas para uma entrevista aqui no Coisicas. Terapeuta junguiana, Edna lança mão de técnicas criativas, histórias, artesanato, atividades lúdicas etc para conduzir seus pacientes por caminhos de autoconhecimento, cura e superação. Eu própria fui por ela conduzida... por 11 anos!

[Apegada, eu?? Esperem até conhecê-la um pouquinho nessa entrevista e vocês compreenderão...]

E, por tudo isso, convido também vocês a participarem dessa entrevista que poderá ter certo ar de "papo cabeça". Mas não só... Será também um "papo alma", um "papo coração"... Porque, é certo, esta será uma conversa que, envolvendo nossas questões tão humanas, não poderia deixar de lançar luz sobre o TODO que somos. 

Coisicas Artesanais - Edna, tem "mágica"??
Edna Pinto Chagas - A mágica que tanto nos deslumbra é, em verdade, uma ilusão dos sentidos. Costumamos chamar de mágica aquilo que nos fascina. Neste sentido, tem mágica sim, tem envolvimento e deslumbramento.

C.A. - Hummm... e como se passa essa "mágica" dentro da gente? O que acontece quando a gente começa a fazer um trabalho manual e fica envolvido de uma tal maneira que, de repente, percebe que perdeu até noção da hora?... 
E.P.C. - Mudamos o nosso funcionamento habitual, que privilegia o hemisfério cerebral esquerdo (racional, lógico, cético, matemático, concreto) e colocamos em funcionamento o hemisfério cerebral direito (criativo, intuitivo, sonhador, abstrato). Quando a razão consegue ficar um pouco de lado, abrem-se novas perspectivas. O ideal, como propõe Jung, é harmonizar os opostos: não isso OU aquilo, mas isso E aquilo...

C.A. Sim, claro... Apenas quando conjugamos os nossos "múltiplos" é que podemos ser INTEIROS, né?... Mas, então... quando a gente está fazendo um trabalho manual, a gente está ativando e integrando nosso "lado  emoção" e nosso "lado razão", digamos assim, e colocando os dois para "trabalhar juntos" e, então, nesse momento, estamos "inteiros" e, portanto, mais "capacitados" a lançar novos olhares e acessar novas "respostas" para as coisas que nos cercam... É isso?
E.P.C. - É isso mesmo, e é muito bom!... 

C.A. - Edna, você, primeiramente, se formou e trabalhou nas áreas de letras e informática, certo? Em que momento da sua vida você despertou o olhar para a terapia? O que te moveu a buscar compreender e ajudar as pessoas por esse viés? 
E.P.C. - Depois de ter experimentado os dois lados, o humano e o tecnológico por muitos anos, eu ainda pensava que tinha que me submeter ao “isso OU aquilo”, mas havia uma certa insatisfação dentro de mim... eu me achava esquisita, não muito bem definida. Um dia me dei conta que, em toda a minha vida, as pessoas me procuravam para compartilhar seus sentimentos mais profundos. Como professora, isso acontecia com meus alunos. Até mesmo amiguinhos da minha filha me contavam coisas que eles diziam que não queriam abrir para seus pais. Na Informática, em empresas grandes, os colegas sempre colocavam uma cadeira na frente da minha mesa e sentavam ali para um papo “secreto”. Só muito depois eu me dei conta que ali estava uma semente que acabou me levando à Psicologia.

C.A. - Outras especialidades e modos de terapia chegaram antes da Psicologia pra você, certo? Como foi esse processo? O que você buscava?
E.P.C. - Não foi simples; eu resistia muito em voltar aos bancos universitários pela terceira vez, especialmente porque já tinha 50 anos. Comecei a fazer umas formações mais curtas, de um ou dois anos: Dinâmica de grupo, Terapias naturais, Cromoterapia, Massagens Bioenergéticas, Psicodrama pedagógico e organizacional, Arteterapia... Um dia, atendendo com arteterapia, recebi uma moça que havia saído de internação em uma instituição psiquiátrica e pude ver, além das marcas físicas que ela trazia por ter sido fortemente amarrada, o seu profundo sofrimento. Isso foi o empurrão final para que eu percebesse concretamente que precisava estudar mais sobre o ser humano e fui fazer Psicologia. Acho que o fio condutor que costura minhas diferentes experiências de vida é o respeito e o amor pelas pessoas e um desejo profundo de ajudá-las a encontrar as respostas que estão dentro delas mesmas.

C.A. - Sim, pois é... Parece até irônico porque, de certo modo, todos nós já temos as "respostas" que tanto buscamos, né? O "problema" é que para acessar essas respostas também precisamos descer ao nosso "porão", escuro e cheio de "tralhas"... E penso que, mais que coragem, é preciso muita disposição para encarar nosso "porão", né? (E fazer a "faxina"! rs)... E, também por isso, é tão importante encontrarmos um profissional que nos ajude nesse processo e nos conduza com amor...
E.P.C. - No “porão” existe a tralha, mas existe também nosso potencial ainda não explorado... e esse é o tesouro que vale a pena explorar... 

C.A. - Sim! Como eu ia dizendo... um profissional que nos conduza com amor e nos ajude a lembrar/perceber que no porão não tem só tralha! Rsrs... E, vem cá... Desde  menina, você sempre demonstrou inclinação para trabalhos manuais e artesanato ou isso surgiu a partir do seu encontro com a arteterapia?
E.P.C. - Eu sou de uma geração que aprendia na família e na escola os trabalhos manuais. Ainda menina, minha avó e minha bisavó me ensinaram a fazer tricô e crochê. Minha mãe me ensinou a trabalhar com papel e também a pintar. Ela sempre me levou para visitar museus e exposições. Assim, trabalhar com as mãos em criações expressivas fez parte da minha vida desde cedo. Chegar à formação em Arteterapia foi consequência...

C.A. - Bacana. E é mesmo: a garotada de gerações anteriores era mais habituada aos fazeres manuais...
E.P.C. - E era muito rico ter a possibilidade desse acesso... 

C.A. - É verdade... Bem, nos últimos anos você descobriu e desenvolveu um trabalho super bonito com Mandalas, onde "brinca" com cores e formas e, assim, elabora a tua própria expressão artística... Como é, para a terapeuta que conduz diversos pacientes por técnicas artesanais, trabalhos criativos e fazeres manuais, se ver também conduzida pela arte?
E.P.C. - As mandalas possuem algumas características que me agradam... Primeiro, sua simetria, que atende a meu lado racional. Segundo, a variedade e combinação das cores e formas, que atende a meu lado criativo. Fiz muitas experiências com diferentes suportes e técnicas até chegar ao que eu hoje chamo de Mandalas Pessoais, seja na sua expressão de Monogramas, seja na sua expressão de Vibração, escondendo palavras que emprestam sua vibração a um ambiente. Estou escrevendo um livro sobre essa trajetória, mas também exponho isso no meu blog. Criar essas mandalas é, sobretudo, uma experiência de muito prazer e me ajuda a mergulhar dentro de mim, desvelando muitas questões...

Coisicas Artesanais - Edna Pinto Chagas
Esta aqui me foi dada de presente♥. Você consegue ver qual palavra ela guarda?

C.A. - Hummm... Então esse processo criativo das Mandalas exerce em você a mesma "mágica" e... também a terapeuta "entra em terapia"?
E.P.C. - Claro... O terapeuta precisa estar também em terapia para não misturar suas questões com as das pessoas que o procuram. Gosto da expressão que Roberto Crema usa para designar o par terapeuta/paciente: companheiros evolutivos... Gosto porque destaca o ponto de que ambos estão em crescimento e não um deles mais passivo...

C.A. - Sim... E, afinal, o terapeuta, para além de ser terapeuta, segue sendo humano, né? (Aliás, ainda bem! Rsrs)... E, vem cá... Que bacana isso do teu livro, hein! Quando rolar o lançamento, vem contar pra gente aqui! =)
E.P.C. - Com certeza... Mas é um projeto que só deve ficar pronto no ano que vem... 

C.A. - Opa! Já estou na expectativa! ;) Edna, nas nossas sessões de arteterapia eu aprendi muitas técnicas incríveis com você... A que mais me deixou "tarada" à época (rsrs) foi aprender a fazer mosaicos de ladrilho... Lembro que comprei material para poder fazer também em casa e que, nessas ocasiões, eu era capaz de ficar horas seguidas debruçada sobre a mesa e nem fome eu sentia! Creio que foi a técnica que mais mexeu comigo... Há alguma técnica com a qual você se identifique mais e que te dê mais prazer ensiná-la e concretizá-la com seus pacientes?
E.P.C. - A técnica do mosaico permite simbolicamente desconstruir significados (quando você quebra os azulejos) e reconstruí-los (quando você reagrupa os cacos criando uma nova forma). Também gosto muito dela. Em uma outra alternativa eu uso papéis coloridos, ou recortando ou rasgando. Gosto também da variação que usa palavras ou imagens recortadas de revistas...

C.A. - Pois é! Esse negócio de, ainda que simbolicamente, quebrar o já pronto para reconstruir algo novo (e meu!) foi mesmo uma experiência "porreta"! Rsrs... Penso que podemos supor, então, que cada trabalho manual sugerido em terapia, cada técnica artesanal traz consigo uma "simbologia" que conduzirá nosso acesso ao "porão" e acenderá uma luzinha lá, para que possamos enxergar o que antes não víamos, certo?
E.P.C. - Certíssimo! O processo terapêutico se dá resgatando do inconsciente novas informações sobre você mesma. E assim ampliando seu nível de consciência... É o que está escrito no Oráculo de Delphos na Grécia... (conhece-te a ti mesmo) ou como está no evangelho: conhece a verdade e ela te libertará... Simples... mas nem tanto...

C.A. - Sim, simples "só que não", rsrs... Sabe, Edna? Uma amiga me contou que uma vez ela chegou no teu consultório se sentindo imensamente triste e chorando muito, e que vc a levou até a janela da tua sala e a entregou um frasquinho de bolinhas de sabão pra ela soprar e que esse gesto simples (soprar bolinhas de sabão na janela) foi capaz de tirar um peso insuportável do seu coração. Tem mais que meramente terapia aí, não? Tem delicadeza e sensibilidade também...
E.P.C. - Realmente, ela era uma pessoa muito reservada e introspectiva, e chegou nesse dia muito magoada e entristecida com algo que havia acontecido com ela. O silêncio dela era uma barreira entre nós. Estava claro para mim que ela precisava esvaziar o coração mas que não ia ser falando... Por isso, propus um exercício respiratório, usando as bolhas de sabão. Pedi que ela pensasse no que a estava oprimindo e soprasse com força para longe dela... Ficamos um bom tempo soprando bolhas de sabão pela janela, ela e eu, e observando sua trajetória, tamanho e os reflexos do sol nelas. Nunca fiquei sabendo o que a havia machucado tanto mas, ao sair do consultório, ela me abraçou e disse baixinho ao meu ouvido: "Obrigada... estou me sentindo bem mais aliviada". No meu modo de ver, não existe terapia se não houver delicadeza e sensibilidade...

C.A. - É... é emocionante esse teu relato... E como é que vc percebe o que propor pra cada paciente? É um olhar clínico? Ou é olhar com o coração??
E.P.C. - Mais uma oportunidade de exercitar o "E" ao invés do "OU"... Claro que o olhar clínico é imprescindível, mas sem o coração fica tudo muito frio. No caminho da terapia não há certezas, cada pessoa é única e, por isso, não há receita pronta... e é aí que entra o coração... Como recomenda Jung: conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana seja apenas uma outra alma humana...

Edna, querida, muitíssimo grata por essa entrevista concedida aqui pro Coisicas Artesanais. Aliás, muito grata por tudo! Gratidão é o sentimento mais intenso que aflora de mim por você, para além de algumas afinidades descobertas, para além do afeto construído e do carinho confirmado, para além do respeito e da admiração que ultrapassam o período em que fomos "companheiras evolutivas" ;) 

Muito grata! Pelo companheirismo, pela generosidade, pela doação...

É lindo e emocionante ver que você realiza o teu trabalho com tanto amor e que distribui esse amor entre as pessoas que procuram a tua ajuda para descer até seus porões, fazer a faxina e... encontrar insuspeitados tesouros!

Agradecida demais da conta! ♥

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E se você curtiu essa entrevista e quer conhecer um pouco mais a Edna e seu trabalho, ler reflexões que tornam o dia mais leve (ou que deixam uma pulguinha atrás da orelha, rs...) e, ainda, se está curioso para ver (e se encantar com) as lindas Mandalas por ela criadas, visite o seu blog!

Aqui: Edna Encontrarte
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